Segue um pequeno comentário teológico sobre os sete Sacramentos na Igreja Católica Apostólica Romana e suas fundamentações bíblicas. 1. Do Batismo. Se a Igreja teve o cuidado de determinar quais são e quantos são os sacramentos, também determinou uma ordem, podemos dizer, de importância para cada um deles em relação uns com os outros. Isso se deve ao fato de que todos eles estão intimamente ligados, não só por sua origem e usos na comunidade de fé, mas principalmente porque alguns imprimem caráter definitivo e determinam a identidade cristã. Para os Sacramentos da iniciação, a Confirmação vem dar caráter definitivo ao Batismo. Não é um complemento, mas um ato de “consumação da graça”, onde os fieis são chamados a dar testemunho da Palavra e da fé que receberam – confessar publicamente a fé que receberam e assumiram como prórpia. Na Igreja Católica Romana tal sacramento é recebido na idade da maturidade, diante da assembléia, o que leva o indivíduo a assumir de forma concreta sua missão e fé. Por este sacramento são dados, pela imposição das mãos do Bispo (sucessor dos apóstolos) os dons do Espírito Santo que serão usados e confirmados pela comunidade. 3. Da Eucaristia. Este é o Sacramento por excelência, para o qual todos apontam: “A Igreja vive da Eucaristia. Esta verdade não exprime apenas uma experiência diária de fé, mas contém em síntese o próprio núcleo do mistério da Igreja” (Ecclesia de Eucaristia, 1). É o sacramento que conclui a iniciação na fé. Por ele o fiel se conforma definitivamente a Cristo Jesus, pois é por tal que o recebemos plenamente.
Está dividido em três grupos: 1) Sacramentos da Iniciação; 2) Sacramentos da Cura; 3) Sacramentos da Comunhão.
Para o primeiro sacramento da vida de um cristão, é explícito no Batismo, que este defina claramente isso que chamamos de identidade. Com tal sacramento é dado à pessoa um nome que a coloca em comunhão com Jesus Cristo e a Igreja. Por isso mesmo é o primeiro passo de inserção na comunidade e é onde ouve-se a confissão de fé daquele que se dispõe à Igreja no caminho da salvação.
Este é o sacramento que abre as portas, não só para a aceitação entre os irmãos na comunidade, mas também, e principalmente, para o recebimento dos demais sacramentos que só podem ser administrados àqueles que pertencem ao grupo e crêem como este. Chamamos o Batismo de “fundamento da vida cristã” e ao qual os demais são ordenados. Sua origem é clara nas palavras de Jesus que manda batizar “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” e crer em seu nome (Mt 28,19-20); tem íntima ligação com o próprio ato de Jesus em deixar-se batizar por João Batista, como sinal do início de sua missão (Lc 3,21-22).
Para o Batismo há um rito litúrgico repleto de símbolos, mas a mudança se dá diretamente no indivíduo. Dos elementos do rito, o mais importante é a água. Desta tira-se a imagem de “mergulhar”, “imergir”. Daí temos que o Batismo é um sepultar-se na morte com Cristo, de onde recebemos a vida da promessa de ressurreição. Também é o sacramento da “vida nova” para entrarmos no Reino de Deus (Jo 3,5). Por este sacramento não só somos introduzidos na comunidade, mas também nos é dado o caráter de “filhos de Deus”.
2. Da Confirmação (Crisma).
Basicamente, então, temos como símbolos deste sacramento, a imposição das mãos e a unção com o óleo do crisma. Assim como o Batismo, é recebido uma única vez. Nele recebe o fiel a missão de testemunhar vivamente o Filho, revestido da força do Espírito Santo.
Tem sua imagem intimamente ligada ao dia de Pentecostes (Atos 2,1-4), onde a efusão do Espírito impelia os apóstolos ao testemunho público e corajoso, sinal de maturidade e obrigação com a defesa da fé. Compara-se ao gesto de confirmação pelo do batismo recebido também em Atos 8, 14-17.
Confessa-se a presença real do próprio Jesus Cristo em totalidade – corpo, alma e divindade – nos elementos do Pão e do Vinho, que são transformados em toda a sua substância. Não exclui as demais “presenças de Jesus”, mas as confirma pela promessa que fez de estar conosco “até o fim dos tempos” (Mt 28,20).
Os elementos indispensáveis para tal sacramento, portanto, são o pão de trigo e o vinho da uva fermentada. São apresentados e, pelas palavras da consagração – pronunciadas por um presbítero legitimamente ordenado e em comunhão com a Igreja – são transformados definitivamente no Senhor Jesus e dados como alimento para o corpo e para a alma do fiel.
Sua origem também está numa ordem de Jesus e nos seus gestos finais da ultima ceia. Ele mesmo tomando o pão e o vinho, pronunciou as palavras “Isto é o meu corpo” e “este é o cálice da nova aliança” e mandou que se repetisse tal gesto “até que venha” (Mc 14,22-25 e paralelos).
4. Da Penitência ou Reconciliação (Confissão).
Também conhecido popularmente por Confissão, o Sacramento da Reconciliação, implica na busca pelo perdão dos pecados cometidos depois da purificação recebida pelo sacramento do Batismo. Uma vez salvos definitivamente por Cristo Jesus por sua morte de cruz, os fieis são chamados a uma vida de santidade e fuga do pecado que nos afasta de Deus. Mesmo assim, a condição humana limitada encontra obstáculos que mancham a “imagem e semelhança” de filhos de Deus.
Consiste basicamente na verbalização, pelo reconhecimento íntimo e pessoal, de que pecamos e erramos segundo a moral cristã e do penitenciar-se segundo a culpa individual. Hoje este confessar é feito sob sigilo ao presbítero legitimamente ordenado e autorizado em receber tais confissões e a quem foi dado o poder de perdoar os pecados. Soma-se ao confessar as palavras de perdão e reconciliação com Deus e a Igreja, reintegrando o fiel à caminhada de busca da santidade.
Assim, como os demais sacramentos, sua ordem está nas palavras de Jesus aos seus apóstolos. Este dá a ordem, após sopra sobre eles o Espírito Santo de oferecerem o perdão a quantos o procurar (Jo 20,22-23). Pode ser recebido quantas vezes forem necessárias e é considerado de grande importância para garantir a vivência da fé conforme os ensinamentos de Jesus e como forma de retomar o caminho do seguimento do Senhor e da busca de conversão constante, cotidiana.
Não se restringe a uma busca exterior, mas a uma conformação de todo o ser com a proposta do Reino de Deus no chamamento de “sermos santos como o Pai do céu é Santo”. Também é um testemunho do perdão e do amor infinitos de Deus que “ama incondicionalmente” e tudo perdoa (perdoa e acolhe a todos – conforme a figura do Pai-misericordioso da parábola de Lc 15,11-32).
5. Da Unção dos Enfermos.
Explicitamente este é um sacramento de cura. Em toda a missão de Jesus, este passou curando e libertando todos os que passaram em seu caminho. Curando da doença que afligia o corpo e também a alma; libertando da morte, da corrupção, do medo e do pecado. Jesus viveu fazendo o bem. Por crermos que ainda está vivo entre nós, cremos também que continua a realizar sinais e milagres que garantem a saúde do corpo, da mente e da alma.
Tal sacramento não visa unicamente uma ação intervencionista de Deus diante de uma situação de doença (por exemplo), garantido um milagre certo. Reintegrar o indivíduo na comunidade e dar sentido ao sofrimento humano também são imagens deste, oferecendo conforto para a alma e alívio para o corpo, mesmo quando o milagre não acontece. Encontramos seu relato na carta apostólica de Tiago, onde lemos: “Sofre alguém dentre vós um contratempo? Recorra à oração. Está alguém alegre? Cante. Alguém dentre vós está doente? Mande chamar os presbíteros da Igreja para que orem sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor.” (Tg 5,13-14). Pela imposição das mãos, oração e unção, oferece-se ao fiel a chance de conformar seus sofrimentos com os de Cristo na cruz, oferecendo suas dores, buscando a cura, para testemunhar a graça de Deus. Aqui, o mais importante é o reconforto.
6. Do Matrimônio.
Aqui temos o testemunho pleno e imagem preferida para a Aliança de Deus com o seu povo. E, claro, neste sacramento está a busca do testemunho pleno do Amor recebido de Deus que é Pai. Tal amor deve ser vivido na radicalidade de Jesus Cristo que “amou-nos até o fim”, dando sua vida uma vez por todas.
Aos cônjuges é feito o convite de viverem conforme o amor pregado por Jesus Cristo, na radicalidade da doação plena e no serviço ao próximo. Mais do que isso, é pelo matrimônio que se vive a missão de constituir uma família, imagem da família que teremos um dia, definitivamente no Reino dos Céus.
Desde o AT, temos diversas imagens para a união conjugal de homem e mulher, desde a fórmula da criação em Gênesis que diz “homem e mulher ele os criou” e também “sede fecundos”. Mas sua principal ordem está nas palavras de Jesus que declara “o que Deus uniu, o homem não separe”, dando caráter definitivo a tal sacramento (cf. Mt 19,1-9). Fica como um sacramento que imprime caráter, por isso mesmo, só pode ser recebido uma única vez, mediante a livre vontade dos cônjuges. Este é um sacramento onde os ministros são o próprio casal e toda a assembléia torna-se testemunha desta união.
7. Da Ordem.
Por fim, temos o Sacramento da Ordem. Definitivamente este sacramento deve ser entendido em sua totalidade como um serviço exclusivo à comunidade de fieis. Donde o homem recebe a missão clara de agir como “o próprio Cristo”, em seu nome, confirmando os seus na fé e na Palavra, animando a Igreja Local e garantindo a fidelidade e ortodoxia da mesma.
Está dividido em três graus, a saber: diaconato, presbiterato e episcopado (nesta ordem). Cabe ao ministro ordenado santificar e confirmar na fé e na verdade de Jesus o grupo de fieis de sua Igreja. Este está conformado à figura de Jesus e sua missão de anunciar o Reino. Também este deve ministrar os sacramentos e administrar os bens da comunidade.
Nasce do sacerdócio comum dos fieis batizados que são “sacerdotes em Cristo” e está na origem do ministério dos apóstolos a quem coube governar a Igreja. Receberam esta missão da escolha de Jesus e do mandato de ir pelo mundo e evangelizar e participam intimamente do “único sacerdócio de Cristo”.
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