[Eu poderia começar este artigo falando assim: "Diante dos desafios desse mundo para a vida cristã..." - Mas ficaria parecendo que estou reclamando do mundo em que vivo.]
Desafios há para todos, seja qual for a vida que queira viver ou ideais que escolha para pautar seu caminho. Desafio mesmo é ser cristão em qualquer lugar, seja onde for. Aquele modelo, Jesus Cristo, é um ideal árduo de se seguir e, viver em clausura, isolado do resto e das tentações não é uma opção possível (não pra todos – e nem estou dizendo que seja fácil também, não!).
É que, pra viver nesse mundo, temos que “viver no mundo”.
Temos que trabalhar, estudar, ganhar dinheiro, divertir… trabalhar mais… tentar ganhar mais dinheiro… sustentar um padrão de vida – quase novela das 8 – e trabalhar mais um pouco. E, claro, é preciso mencionar a escassez de tempo (quem não reclama da falta de tempo?!?). Daí, tempo é dinheiro. Só não sei onde tem pra vender esse tal de tempo: muita gente gostaria de comprar umas horinhas a mais por semana – uns pra trabalhar mais e ganhar mais dinheiro pra comprar mais “tempo”; outros só pra ter um pouco mais e continuar reclamando que ainda falta (difícil agradar a todos!).
Partindo dessa lógica poderíamos até entender porque alguns não têm “tempo pra Deus”. E não falo só de ir à igreja – como se isso significasse “ter tempo pra Deus”. Mas falta tempo até pra ser o que julgamos ou dizemos que somos. Não dá pra ser cristão o tempo todo (quase hora nenhuma), que dirá ser alguém.
Aí encontrei na minha bíblia (tem na bíblia dos outros também) uma conversa de Jesus com um sujeito sem nome que começa da seguinte maneira:
Mt 19,16-22
“Alguém aproximou-se de Jesus e disse: ‘Mestre, o que tenho que fazer de bom pra ter a vida eterna?’”
Como todos conhecem esse trecho (eu acho!?!), vou tratar do que sei que ninguém repara ao ler.
O escritor desse evangelho começa dizendo que um qualquer, alguém indefinido, sem identidade conhecida, alguém sem importância ou relevância suficiente para a narrativa, aproximou-se de Jesus para falar. Isso é bem significativo se pensarmos em quantos já se aproximaram de Jesus e quantos são relevantes e quantos são ignorados. Mas tenho certeza que não foi Jesus quem o ignorou.
Continua: esse tal quer saber como faz pra TER a vida eterna. Basta uma resposta simples e objetiva de Jesus para ele ficar satisfeito. Quer uma receita pronta, um produto pra comprar e levar pra casa com manual de instrução simples de ler e sem complicação pra montar. Nada que tome muito tempo ou que envolva muito compromisso.
Parece com o que temos hoje em dia com as quase mercadorias religiosas. Religião é um tipo de supermercado das alegrias fáceis e da total falta de compromisso: levo o que digo que convém, Deus que se adapte às minhas necessidades. Tem gosto pra tudo, e tudo pra todo gosto; religiosidade de todo tipo e preferência; claro, sempre sem precisar se comprometer com nada e sem tomar o seu precioso tempo que ainda não está à venda no mercado!
O que poucos sabem é que não dá pra TER a vida eterna; não é mercadoria.
[agora fiquei na dúvida se eu precisava mesmo ter escrito isso aí!?! não é óbvio? - vai saber! Pra garantir, escrevo assim mesmo.]
Pra quem quer TER, possuir a vida eterna como um bem de consumo qualquer para pessoas quaisquer, a resposta de Jesus não poderia ser noutro tom:
“Se você quer SER perfeito [bom], vai, vende tudo o que você TEM, distribui o dinheiro pros pobres, e assim poderá TER um tesouro no Céu. Depois [só depois] vem e segue-me.” (vv. 21)
Esse Jesus não está preocupado com o “ter”, mas com o SER. Importa ser alguém. Esse que começou falando com Jesus chegou como um qualquer, como “alguém” dentre muitos. Na narrativa ele não É (do verbo “ser”) relevante, pois valoriza os bens mais que sua própria identidade – quer apenas possuir.
Jesus, ao contrário, quer as pessoas inteiras, com identidade, que saibam o que SÃO (do verbo “ser”) que têm identidade.
Mas, o final da história é triste. Esse tal não entendeu, foi embora sem abandonar seu apego ao “ter”:
“… o jovem foi embora cheio de tristeza, pois possuía ["possuir" e "ter" dá na mesma] muitos bens.” (vv. 22)
Ele preferiu continuar sem identidade.
.
[O próximo artigo será continuidade desse e um comentário de um trecho da Exortação Apostólica CHRISTIFIDELES LAICI de João Paulo II, exatamente sobre os desafios de ser cristão no mundo de hoje.]
Comentários desativados