Contra Cuba, todos tem muita coragem!

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Posted on : 13-03-2010 | By : Marcos Lemos (@hordones) | In : Política

bandeira-de-cuba No primeiro dia de janeiro de 2003 eu estava entre a multidão em Brasília esperando a posse do presidente eleito. Estava a pouco metros do Palácio do Planalto e vi passar uma comitiva de policiais e seguranças fortemente armados, diante de mim e o silêncio tomou conta da multidão. Caminhando imponente e muito alto, destacando-se no meio dos homens de sua guarda, estava o Presidente cubano Fidel Castro.

No dia 2 de janeiro adiante, fui à posse do ex-Ministro da Educação, Senador Cristovam Buarque. De repente o silêncio se instaurou e eu estava a menos de dois metros do mesmo Fidel Castro.

Goste ou não, concorde ou não com suas posturas e legado, o ex-presidente cubano é dono de 50 anos da história do século XX. É impossível contar a história daquele século sem citar tal homem e sua minúscula ilha que apavorava a super potência.

A noticia da semana foi a condenação que a União Européia publicou em sua resolução pela “morte de Orlando Zapata , preso político que morreu em 23 de fevereiro após uma greve de fome de 85 dias por melhores condições na prisão“.
(O Globo, Mundo, 12/03/2010)

Minha única pergunta é (retórica, claro): Repudiam Cuba pelo ato de atrocidade de deixar um homem morrer de fome? Também não concordo com a opressão do regime daquele país, mesmo tendo coisas louváveis e outras tantas condenáveis. Mas a minha indignação é quanta coragem tem a União Européia e o resto do mundo em se pronunciar contra o que faz o governo da pequena Ilha.

Estranho mesmo é a falta da coragem em condenar os Estados Unidos da América pela devastação no Afeganistão e no Iraque – sem contar que não me lembro de uma resolução da UE condenando a guerra de forma tão veemente. Faltou coragem ao resto do mundo em condenar Guantánamo e outros crimes de guerra promovidos pelos EUA. Não encontrei no Google referências à UE condenar o trabalho subumano na China e suas fábricas explorando crianças, nem a condenação por matar centenas de “inimigos políticos” deles mesmos.

Ah! Israel deixar morrer centenas de milhares de Palestinos, de fome e sede, não é condenável? Onde mesmo posso ler uma resolução da UE sobre esse assunto? Claro, não existem.

É, contra Cuba, qualquer um tem muita coragem.

Comentários

Mandou muito bem, Lemos!

Você não bota fé, mas discuti isso com uma cubana na internet (ao menos ela se dizia cubana, vai saber). Disse para ela que temos de comparar Cuba com países de igual situação. Não adianta comparar Cuba com:

a) países industrializados

b) países gigantes e com muitas riquezas e semi-industrializados: caso do Brasil

c) países "modelos" da política externa dos EUA: Coréia do Sul, Alemanha Ocidental e Chile (em certa medida). Países escolhidos a dedo para mostrar que "sim, é possível vencer na política internacional". Uma espécie de miragem que jamais chegará nem para a metade dos países do mundo.

Vamos comparar Cuba com o Haiti, por exemplo. São dois extremos: um é um país soberano. O outro é um país que eventualmente é invadido/golpeado pelas potências ocidentais (as mesmas que "choram" pela morte do preso político cubano).

Cuba é sim um país pobre. Mas a pobreza é diferente da miséria – situação dos haitianos.

O Caribe é uma área de muitas catástrofes ambientais. Veja a situação do Haiti… miséria, assaltos para não se morrer de fome. Alguém lembra de um paralelo na história recente de Cuba?

Cuba é pobre. Mas grande parte dos paisezinhos com as circunstâncias desta ilha estão na miséria absoluta – o que é diferente da pobreza.

As notícias que temos é de que o sistema de Saúde em Cuba, saneamento básico e educação são de elevado nível.

Que país africano tem isso? Que país sulamericano tem isso?

Mas não… nós comparamos Cuba com a Europa Ocidental, com os EUA.

Talvez a grande diferença de Cuba – além do regime socialista – seja a soberania.

É soberania que falta ao Haiti, à praticamente toda África e boa parte dos países subdesenvolvidos.

Foi a soberania – advinda da Revolução Comunista – que permitiu a China tomar as rédeas de seu destino, modernamente. O Ocidente, como se sabe, quis "picar" a China em várias colônias – tal qual fizeram com a Indochina.

Enfim, pode se ter soberania sem liberdade. Mas não se pode ter liberdade sem soberania. É por isso que nós, pessoas honestas, não vamos crucificar Cuba – por mais que tenhamos críticas. Por que o coro hipócrita da "comunidade internacional" pode acabar financiando o fim da soberania cubana.

Aí então teremos um novo Haiti, um novo Congo, um novo país miserável – e a "choradeira" pelos "direitos humanos" cessar-se-á.

Tudo isso pode ser dito de outra maneira: Cuba poderia ser a ditadura que fosse… essa turminha do liberalismo não falaria nada – desde que houvesse Mercado e Propriedade Privada. Sim, porque são eles que crucificam a democracia venezuelana enquanto não falam nada sobre a ditadura chinesa (essa sim uma ditadura de verdade). Aliás, não raro essa turma aí sente saudades da ditadura brasileira.

PS: exigiram que Lula criticasse o governo cubano, em visita à Cuba. Não sei que manual de diplomacia é esse, mas pelo que saibamos, Lula não critica os EUA quando está em visita aos EUA em relação às casas de tortura de Abu-Graib e Guantánamo.

Aliás, essa turma não protesta contra o presidente dos EUA por Abu-Graib e Guantânamo. Estranho, não? Eles não são os defensores dos Direitos Humanos?

Excelente texto. Cuba -com todas suas vitórias e conquistas sociais- é, e justamente por isso, odiada pela direita mundial.

Ninguém desconhece as limitações materiais da Ilha (talvez do tamanho do Rio de Janeiro e sob bloqueio há 40 anos), mas o que Cuba precisa é de melhoras em seu socialismo, e jamais de restauração capitalista.